Sem perspectiva de juros baixos
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Depois da confusão causada em junho, o Banco Central (BC) optou pela concisão ao reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, para 14% ao ano. Não houve surpresas em relação à decisão, que já era amplamente esperada pelo mercado financeiro, mas o curto comunicado divulgado após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), ainda que não tenha sinalizado claramente quais serão os próximos passos a serem adotados, ao menos não abriu margem para contradições.
De fato, são tantas as incertezas que parece prudente deixar todas as possibilidades em aberto até a próxima reunião, em setembro. No exterior, a duração dos conflitos no Oriente Médio permanece uma incógnita. Já no mercado doméstico, há alguns sinais de que a economia perdeu força, a despeito de todas as medidas eleitoreiras que o governo Lula lançou nos últimos meses.
Sobre isso, o BC não dourou a pílula, ao reconhecer que os “desenvolvimentos da política fiscal” impactam a política monetária e os ativos financeiros e reforçam incertezas. Manteve, também, a menção a “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária”.
Entre os analistas, há quem veja motivos de sobra para continuar a reduzir a Selic, assim como há quem avalie que o espaço para cortar os juros se exauriu. O fato é que há uma grande diferença entre as projeções de inflação para o primeiro trimestre de 2028 – o chamado “horizonte relevante”, que guia as decisões do Copom. Para o BC, elas continuam em 3,2%; para o mercado financeiro, segundo a última edição do Boletim Focus, elas estão em 3,8%. De qualquer forma, ambas permanecem acima do centro da meta, de 3%.
O balanço de riscos que o BC avalia para tomar suas decisões também continua assimétrico, ou seja, com mais chances de a inflação subir do que cair. Além da guerra, das medidas do governo e das expectativas de inflação, permanecem os potenciais efeitos do Super El Niño na produtividade do agronegócio e as pressões do setor de serviços na inflação. Na outra ponta, figuram a desaceleração da economia no País e no exterior e a redução nos preços das commodities.
A ata da reunião, a ser divulgada na próxima semana, pode ajudar a dissipar algumas dúvidas sobre o cenário, mas é improvável que traga sinalizações mais explícitas sobre a visão do BC. Escaldado pelos ruídos da reunião anterior, o Copom parece decidido a incorporar o estilo lacônico que o banco central norte-americano adotou sob a direção de Kevin Warsh, que assumiu o Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês) em maio deste ano, sob as bênçãos do presidente dos EUA, Donald Trump.
Uma coisa é evitar se comprometer com decisões futuras sobre os juros, o que os bancos centrais têm todo o direito de fazer, sobretudo em momentos de tanta instabilidade. Outra, bem diferente, é tomar uma decisão em um sentido quando os dados indicam o oposto. O problema, nesse caso, não foi excesso de informação, mas falta de coerência, algo crucial para a credibilidade das instituições.
De um lado, a desaceleração da inflação nos últimos dois meses, por exemplo, está bastante relacionada às ações para conter os preços dos combustíveis e ao comportamento dos alimentos, que costuma recuar nessa época do ano. Do outro, as medidas para expandir o acesso ao crédito lançadas pelo governo mal começaram a fazer efeito, e o Executivo já cobrou que os bancos públicos abram o cofre e flexibilizem restrições para os encalacrados.
Se os juros cairão ou não em setembro, não se sabe, mas é certo que eles seguirão em nível muito elevado. Uma redução estrutural da Selic depende, necessariamente, de um duro ajuste fiscal, algo sobre o qual nem o presidente Lula nem os candidatos da oposição querem falar neste momento. Enquanto isso não ocorrer, as contas públicas permanecerão desequilibradas, a trajetória da dívida continuará com viés de alta e a inflação seguirá sob pressão, razão pela qual não há motivo para esperar taxas mais civilizadas.

