O novo tarifaço de Trump
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Após punir produtos brasileiros com uma nova tarifa de importação de 25%, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, agora partiu para cima do Canadá, vizinho e tradicional parceiro comercial. Trump assinou decretos que impõem uma draconiana sobretaxa de 50% sobre produtos canadenses como vinhos, equipamentos e máquinas elétricas a partir de 19 de agosto.
Nem o timing nem os alvos iniciais das novas sanções de Trump são aleatórios. Em resposta à decisão de fevereiro da Suprema Corte, que derrubou o tarifaço instituído no início de 2025, a gestão do republicano lançou mão da Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para restaurar a chamada tarifa-base de 10% sobre importações.
Mas as sobretaxas baseadas na Seção 122 expiram nesta sexta-feira, a menos que o Congresso americano as renove, o que parece improvável. Por isso, o governo Trump agora se vale de outros pretextos para escalar a batalha de poder com a própria Suprema Corte e, ao mesmo tempo, pressionar ainda mais as nações que Washington entende estarem sob sua “esfera de influência”, como o Brasil e o Canadá.
Enquanto no caso brasileiro instrumentalizou-se investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio, a nova sobretaxa contra o Canadá tem por base uma disposição tarifária de 1930, que permite ao presidente impor tarifas de até 50% quando outro país discrimina produtos americanos. Até hoje tal dispositivo jamais havia sido usado.
Mais uma vez, não se trata de casualidade. O Canadá sofre ameaças de punição severa no exato momento em que México e Estados Unidos retomam negociações sobre o USMCA, o pacto comercial regional que mantêm com os canadenses desde 2020.
No início de julho, Trump decidiu que não renovaria o acordo. Agora, os americanos sentam-se à mesa apenas com os mexicanos, numa tentativa clara de arrancar concessões ao mesmo tempo em que o outro parceiro, o Canadá, não só não está presente nas negociações, como é especialmente ameaçado – a tarifa de 50% incidirá até sobre produtos canadenses enquadrados no USMCA e hoje, portanto, isentos.
Por mais que o tarifaço seja ilegal, como já reconheceu a Suprema Corte, ou impopular, já que quem realmente paga o imposto de importação é o consumidor americano, Trump não vai desistir.
Não importa que, para justificar o injustificável, ele precise apelar até para a fumaça dos incêndios florestais canadenses que chega aos Estados Unidos, ou ignorar solenemente que a relação comercial com o Brasil é superavitária para seu país. Como bem observou o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Matias Spektor em entrevista ao Estadão, Trump está mais preocupado em manter sua influência na região – que, reconheça-se, no atual governo americano é tratada sem nenhum disfarce como quintal americano. “O Brasil ainda é o grande parceiro comercial da China na esfera de influência que o Trump quer restaurar na América Latina”, afirma Spektor.
Vale lembrar ainda que o presidente dos Estados Unidos acabou reaproximando, inadvertidamente, o Canadá da China. Trump tanto agrediu o Canadá, a quem enxerga como um Estado americano, que o país vizinho recentemente fechou acordo para importar carros elétricos chineses.
É nesse contexto, de batalha interna contra as instituições americanas e externa contra a China, que Trump retoma sua cruzada protecionista. Como a disputa direta com os chineses é pesada para os Estados Unidos, Trump tenta enfraquecer o poderio da China nas Américas.
Isso não significa, porém, que países como Brasil e Canadá não possam negociar. Embora haja a perspectiva de que tarifas adicionais ainda sejam anunciadas pelos americanos para um conjunto bem mais amplo de países, o escopo delas tem sido bem mais reduzido que o das que foram impostas no ano passado. Trump tem um teste eleitoral em novembro e sabe que não pode aumentar ainda mais o custo de vida dos americanos.
Do lado de quem está sendo punido, é preciso resistir também à tentação natural de retaliar medidas que não fazem sentido algum. Trump ladra, mas seguirá negociando porque os Estados Unidos ainda têm instituições fortes e porque mesmo Brasil e Canadá têm algum poder de barganha.

