‘Morte digital’ de Bolsonaro completa um ano
Por Rafael Moraes Moura — Brasília / colunsa da malu gaspar / o globo
Jair Bolsonaro, então presidente, e Alexandre de Moraes, em evento do TST — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo/19-05-2022
Um dos mais duros golpes no bolsonarismo, a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de proibir Jair Bolsonaro de utilizar redes sociais – sejam dele mesmo ou de intermediários – completa um ano em vigor neste sábado. A medida foi imposta por Moraes em 18 de julho de 2025, antes mesmo de o ex-presidente acabar condenado a 27 anos e três meses de prisão pelo STF na ação da trama golpista, o que só ocorreu dois meses depois.
À época, Moraes alegou que Bolsonaro usava as redes sociais para amplificar o discurso do então deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) de usar o apoio do governo Donald Trump para pressionar autoridades brasileiras e instigar os seguidores contra o Poder Judiciário, em uma tentativa de encurralar o STF para evitar a sua condenação. Como se viu, não deu certo.
Na avaliação de integrantes do PL, o veto de Moraes representou uma espécie de “morte digital” de Bolsonaro, esvaziando o seu poder de pautar o debate público, incitar apoiadores e manter forte engajamento nas redes sociais, uma arena onde a direita ainda mantém larga vantagem em relação à analógica base aliada do presidente Lula.
“Alexandre de Moraes criou o exílio virtual”, criticou um interlocutor de Bolsonaro com bom trânsito no meio político e jurídico. As últimas publicações de Bolsonaro no X ocorreram em 17 de julho de 2025 – nelas, o ex-presidente reposta uma carta de apoio de Trump, em que defende o encerramento imediato do caso da trama golpista e chama de “vergonha internacional” a forma como o Brasil estava tratando o seu aliado. Bolsonaro também retuitou uma entrevista de Lula em que o petista disse que o mandatário norte-americano teria sido julgado e até mesmo preso por conta da invasão do Capitólio, caso fosse brasileiro.
“O que salvou Jair Bolsonaro do esquecimento digital foi a fidelidade dos muitos grupos de seus apoiadores”, afirmou o cientista político Paulo Kramer, que ajudou na elaboração do plano de governo de Bolsonaro nas eleições de 2018. “Temos que refletir sobre o seguinte: essa massa não é flavista, nem michelista — é bolsonarista. Daí a disputa acirrada para ver quem fica com a maior fatia desse patrimônio eleitoral.”
A controvérsia em torno do uso das redes sociais do clã Bolsonaro voltou à tona após Moraes proibir na última segunda-feira (13) o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (RJ), de visitar o pai por um período de 90 dias. Na prática, a nova decisão impediu o filho 01 de se reunir com o ex-presidente até o primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro, em uma período-chave do calendário eleitoral, quando estão sendo fechadas alianças estaduais e a composição das chapas, inclusive a escolha de quem será vice de Flávio.
Desvio de finalidade
Moraes suspendeu as visitas de Flávio após o pré-candidato do PL ir às redes sociais no último sábado (11) para divulgar uma carta à mão escrita por Jair Bolsonaro. No documento, o ex-presidente elege o filho como “porta-voz” e conclama a militância a se unir em torno da candidatura do senador, definida pelo pai como “a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência, e do empobrecimento”.
Para Moraes, houve um desvio de finalidade da visita: Flávio teria deliberadamente aproveitado o encontro para obter a carta com a “exclusiva finalidade” de divulgá-la nas redes sociais, burlando, assim, a restrição imposta pelo ministro.
“Não há dúvidas, portanto, que a conduta irregular de Flávio Bolsonaro desrespeitou expressa vedação judicial e configurou ostensivo desvio de finalidade no exercício de seu direito de visita”, frisou Moraes.
Viva-voz
Esta não foi a primeira vez que Moraes acusou Flávio de descumprir decisões que impuseram restrições ao seu pai.
Em agosto do ano passado, um outro movimento de Flávio, também relacionado ao uso de redes sociais, irritou Moraes e foi usado como justificativa para determinar a prisão domiciliar de Bolsonaro, antes mesmo da conclusão do julgamento da trama golpista, que só ocorreu em setembro.
À época, mesmo com a decisão de julho de 2025 em vigor, Flávio colocou o pai falando brevemente em viva-voz durante uma manifestação no Rio. Bolsonaro se limitou a dizer na ocasião: “Boa tarde, Copacabana. Boa tarde, meu Brasil, um abraço a todos. É pela nossa liberdade, estamos juntos. Obrigado a todos, é pela nossa liberdade, pelo nosso futuro, pelo nosso Brasil. Sempre estaremos juntos! Valeu!”.
A curta declaração foi o suficiente para Moraes concluir que houve um descumprimento das medidas cautelares e determinar a prisão domiciliar.
“Agindo ilicitamente, o réu Jair Bolsonaro se dirigiu aos manifestantes reunidos em Copacabana, no Rio de Janeiro, produzindo dolosa e conscientemente material pré-fabricado para seus partidários continuarem a tentar coagir o STF e obstruir a Justiça, tanto que o telefonema com o seu filho, Flávio Bolsonaro, foi publicado na plataforma Instagram”, escreveu Moraes.
Eduardo
A proibição do uso de redes sociais foi uma medida tomada por Moraes no âmbito de um outro processo que atinge o clã Bolsonaro: o que mirou a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde tramou sanções contra ministros do STF para impedir a condenação do pai na ação penal da trama golpista. Para Moraes, Jair Bolsonaro utilizou as redes sociais para reverberar o discurso do filho, inflamando seus seguidores contra o Supremo.
Em depoimento à Polícia Federal, Bolsonaro chegou a dizer que repassou R$ 2 milhões a Eduardo Bolsonaro para custear as despesas do filho nos Estados Unidos, onde cumpre um autoexílio. “Botei dinheiro na mão dele, bastante até, e ele está levando a vida dele. Dinheiro limpo, legal, Pix”, disse Bolsonaro, citando o mecanismo de pagamento instantâneo usado pelo governo Trump como uma das justificativas para acusar o governo Lula de práticas comerciais desleais e impor um tarifaço às exportações brasileiras.
À época, Moraes alegou que as postagens realizadas e a contribuição financeira encaminhada a Eduardo eram “fortes indícios do alinhamento” de Bolsonaro com o seu filho, “com o claro objetivo de interferir na atividade judiciária e na função jurisdicional desta Suprema Corte e abalar a economia do país, com a imposição de sanções econômicas estrangeiras à população brasileira com a finalidade de obtenção de impunidade penal”.
Assim como Flávio e o pai, Eduardo também pagou o preço pela sua artilharia digital.
Em junho deste ano, a Primeira Turma do STF condenou por unanimidade o filho 03 de Jair Bolsonaro a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, deixando-o inelegível pelos próximos 12 anos. Também inelegível, Bolsonaro pai segue em prisão domiciliar e “silenciado” do mundo virtual, enquanto sua família vive uma ruidosa guerra pelo seu espólio político — nas redes e em plena praça pública.

