Tara golpista
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Em um descarado flerte com o golpismo, o atual presidente da Colômbia, o esquerdista Gustavo Petro, insiste em afirmar que o opositor de direita Abelardo de la Espriella não venceu seu candidato, Iván Cepeda, nas eleições presidenciais, ao contrário do que atestam observadores estrangeiros e as próprias instituições colombianas encarregadas do processo eleitoral.
Assim, comprova-se que a tara golpista nas democracias das Américas não se restringe à direita trumpista ou bolsonarista. A esquerda que se apresenta como salvadora da democracia contra o autoritarismo de direita também não se faz de rogada quando o resultado das urnas lhe desfavorece e trata de deslegitimar a vitória dos adversários. Seja à esquerda ou à direita, trata-se de comportamento inaceitável, que merece franco repúdio das genuínas democracias da região.
Se era séria a “defesa da democracia” que animou a “4.ª Cúpula em Defesa da Democracia”, realizada com fanfarra em abril em Barcelona e que contou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o próprio Petro, então que o Brasil faça gestões junto ao atual presidente colombiano para que a transição no país se dê sem sobressaltos antidemocráticos.
Enquanto o Brasil silencia, Petro consagra os últimos dias de seu governo a inflamar os colombianos. O presidente sugere, por exemplo, que não comparecerá à posse de Espriella, marcada para 7 de agosto.
Tradicionalmente, os presidentes de saída na Colômbia fazem seu discurso de despedida no mesmo dia em que o novo mandatário toma posse. Como não admite a vitória de Espriella, Petro agora trata o 7 de agosto como “data trágica”.
Trágica, na verdade, é a maneira como Petro está instrumentalizando o feriado de independência da Colômbia, celebrado em 20 de julho. O esquerdista convocou uma “mobilização geral” dos colombianos na data de forte peso simbólico, quando promete antecipar seu discurso de saída. Já Cepeda, que chegou a reconhecer a derrota para Espriella, agora prega abertamente a “desobediência civil”.
O objetivo é claro: fomentar a narrativa de fraude eleitoral para jogar os colombianos contra Espriella. Petro e Cepeda apegam-se, sobretudo, ao fato de o presidente eleito ter cidadania norte-americana, o que faria dele alguém leal à Constituição dos EUA, e não à da Colômbia.
Espriella, por sua vez, acusou Petro de fomentar um golpe e suspendeu o processo de transição governamental que vinha tocando junto à administração do atual mandatário.
Tanto pior para a Colômbia, que, uma vez mais diante de uma escalada da violência, elegeu Espriella, por margem estreitíssima, na esperança de viver dias mais seguros.
Petro despeja mais gasolina na fogueira, inviabilizando a transição e elevando a temperatura em um país de passado recente trágico, marcado pela guerra civil e pela atuação violentíssima de grupos narcotraficantes e paramilitares – o que faz da promoção de ideias golpistas algo ainda mais irresponsável.

