Sob pressão, Mercosul encara a abertura comercial
Em recente reunião de cúpula em Assunção, no Paraguai, o Mercosul obteve consenso sobre a aceleração da abertura de seu mercado, altamente protegido. Não há alternativa num contexto de comércio global fragmentado e suscetível a decisões unilaterais dos EUA.
Há parceiros à espera de resposta, como o Reino Unido, desde o início da vigência do acordo de livre comércio do Mercosul com a União Europeia, em maio. No final de junho, as conversas com o Japão em torno de um Acordo de Associação Econômica foram formalizadas. A China aguarda há anos, e o governo brasileiro resgatou da lista de espera um acerto com Pequim.
O escopo dessa negociação está longe da liberalização total de lado a lado, mas abre uma porta para tal arranjo no futuro.
Seja pela divisão ideológica dos sócios do Mercosul, seja pela resistência do setor industrial das quatro economias, não será fácil obter a anuência do bloco a uma negociação com a China.
O encontro de líderes gerou resultados. Os acordos com Singapura, maior hub logístico da Ásia, e com a Associação Europeia de Livre Comércio entram em vigor neste semestre. A redução a zero das tarifas com o Egito deve ter início em setembro. Há, porém, uma agenda a ser resgatada.
Negociar a ampliação do alívio de tarifas com a Índia e retomar conversas com Vietnã, Canadá, Indonésia, Emirados Árabes, Coreia do Sul e Líbano são objetivos que o bloco não deve postergar.
Desde a sua implementação, em 1995, o Mercosul conseguiu razoavelmente liberalizar seu comércio com a América do Sul e, agora, com a Europa. Deixou pelo caminho tratativas com os mercados mais dinâmicos da Ásia e o avanço de seus acordos com o México e a África Austral.
Desde que enterrou o Acordo de Livre Comércio das Américas (Alca) em 2005, o Mercosul refuta um diálogo nessa seara com os Estados Unidos. A omissão dessa via no encontro de Assunção não terá sido inconsequente, dado o afã de Donald Trump em desorganizar o comércio global e desrespeitar tratados com Canadá e México.
Entretanto haverá de ser repensada, sob o risco de a união aduaneira sul-americana acabar implodida pela Argentina, signatária de arranjo bilateral recente com os EUA, ou por outro sócio.
Não deveria haver dúvida sobre os benefícios para as economias e os cidadãos do Mercosul de uma expansão de parcerias livres de barreiras comerciais. Agora, aumenta a pressão sobre o tema, dado o risco de seus setores produtivos acabarem à margem das cadeias de valor do século 21.

