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Seguro para produção rural paga o preço da incúria fiscal do governo

Por Editorial / O GLOBO

 

 

A gastança sem limite do governo já prejudica a agricultura, setor mais dinâmico da economia brasileira. O desregramento fiscal tem levado a bloqueios na execução do Orçamento da União, cujo impacto é sentido em vários segmentos. No setor agrícola, quase metade dos recursos previstos para subsidiar a contratação de seguro contra quebra de safra acaba de ser bloqueada. O Programa de Subvenção do Prêmio do Seguro Rural (PSR), gerenciado pelo Ministério da Agricultura, previa R$ 1 bilhão para ajudar os produtores rurais a pagar por suas apólices. Agora, R$ 474 milhões estão congelados.

 

Sem seguro, o produtor rural fica à mercê de variações climáticas cada vez mais extremas. No ano em que se prenuncia um aquecimento sem precedentes das águas do Pacífico Equatorial, agravando a intensidade do fenômeno El Niño, deverá haver mais chuvas no Sul, além de secas na Região Amazônica e no Nordeste. Sem a indenização por quebra de safra, o agricultor pode não conseguir se manter no mercado.

 

 

Os dados são preocupantes. A área cultivada protegida por seguradoras deverá cair para 2,7 milhões de hectares neste ano, ou 2,8% do total, menor proporção desde a instauração do PSR , em 2006, segundo o Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro). Isso representa queda de 81% ante os 14,2 milhões de hectares segurados em 2021, ano em que o PSR liberou mais recursos (R$ 1,2 bilhão). Executivos do agronegócio ouvidos pelo GLOBO consideram um equívoco o governo privilegiar o subsídio ao crédito rural, deixando em segundo plano o seguro de safras.

 

As incertezas criam um cenário nebuloso no horizonte de seguradoras e produtores rurais. “Fizemos um planejamento para vender as apólices considerando R$ 1 bilhão de subvenção. Agora, teremos menos de R$ 500 milhões. Como fica o planejamento das seguradoras?”, pergunta Daniel Nascimento, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais. Previsibilidade é uma palavra-chave em atividade com tantos fatores imponderáveis.

 

O aumento do subsídio ao seguro rural entre 2019 e 2021 acompanhou a mudança de patamar da área plantada do país, de 80 milhões para 90 milhões de hectares. Há relação direta entre subsídio e desenvolvimento do mercado segurador agrícola, segundo estudo recente do FGV Agro sobre o apoio estatal ao seguro rural no Brasil e em sete outros países. Os Estados Unidos destinam por ano o equivalente a R$ 60 bilhões à subvenção de seguros rurais.

 

Em 2025, o governo já havia cortado 47% desses recursos em relação a 2024. Agora o corte é superior a 50%. Tudo porque o Planalto resiste a fazer uma gestão fiscalmente responsável, deixando que os gastos sejam comprimidos pelo crescimento de despesas obrigatórias, como os benefícios previdenciários indexados pelo salário mínimo ou as parcelas orçamentárias vinculadas a percentuais da arrecadação. O preço a pagar pela incúria fiscal é alto — e o setor agrícola comprova isso.

 

Lavoura de soja  no interior de GoiásLavoura de soja no interior de Goiás — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg/03/03/2026

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