Mais fuzis do que pás na Venezuela
Em Los Corales, no litoral caribenho, a menos de 40 quilômetros de Caracas, o operador de uma retroescavadeira governamental não apareceu na cena, de modo que os residentes fizeram uma vaquinha para remunerar um substituto.
— Havia pessoas respondendo sob as ruínas quando as chamamos, mas agora estão mortas — testemunhou Rosalia Bustamante, moradora local.
Lá, mais de uma dúzia de cadáveres foram recuperados de um edifício destroçado. Na ausência de sacos apropriados, terminaram embrulhados em plásticos de lixo e começaram a se decompor sob o sol dos trópicos. Centenas de voluntários deslocaram-se em motos de Caracas a Cátia La Mar, em La Guaira, para auxiliar os resgates. Uma barreira policial tentou bloquear-lhes o trajeto.
— Aqui, há mais fuzis que pás, irmão! — gritou um deles aos homens armados. O general reformado Antonio Rivero registrou que o governo poderia ter convocado as Forças Armadas com seus caminhões, geradores e sensores, mas não convocou. Ángel Rangel, ex-chefe da agência de defesa civil, explicou: — Eles estão preparados para distúrbios sociais, não desastres naturais.
Terremotos implodem ditaduras cleptocráticas. Na Nicarágua, depois da catástrofe de dezembro de 1972, o roubo descarado da ajuda internacional pelo tirano Anastasio Somoza impulsionou a guerrilha sandinista que acabaria por derrubá-lo sete anos mais tarde.
Na Venezuela, do desespero, tristeza e desalento brotou uma indignação sólida. Autoridades foram vaiadas nas ruas e insultadas nas redes. O terremoto abalou as fundações do plano da Casa Branca de reforma da ditadura venezuelana.
A extração de Nicolás Maduro e sua substituição por Delcy Rodríguez (na prática, pelo novo homem forte, o ministro do Interior Diosdado Cabello) assinalaram uma brusca reorientação geopolítica. Os Estados Unidos converteram a Venezuela em protetorado informal, trocando acordos petrolíferos e minerais pela sustentação do regime falido. A ideia era deflagrar um ciclo de recuperação econômica, por meio da reativação da indústria do petróleo, a fim de estabilizar a ditadura reinventada como governo títere. Mas as ramificações políticas da tragédia ameaçam demolir o plano.
María Corina Machado, a líder opositora que concentrou as esperanças do povo, ganha nova oportunidade. Em janeiro, ao apoiar o sequestro de Maduro, imolou o princípio da soberania nacional na expectativa frustrada de um retorno triunfal patrocinado pelos Estados Unidos. Depois, acomodou-se às conveniências do governo Trump, curvando-se à vaga promessa de uma transição adiada. A crise aberta pelo desastre natural a coloca numa encruzilhada.
Dias atrás, uma dura advertência americana barrou seu ensaio de voltar clandestinamente ao país, via Curaçao. Segundo alega a Casa Branca, seria preciso evitar tensões políticas no pós-terremoto. Delcy Rodríguez invocou o mesmo álibi para impor a exigência de autorização oficial à chegada de voos internacionais a Caracas. Fuzis, em lugar de pás. A segurança da camarilha no poder, não o auxílio às vítimas, é a prioridade absoluta do governo.
Há indícios de que o terremoto servirá como pretexto, tanto em Caracas como em Washington, para enterrar a perspectiva de eleições livres. Corina Machado encara uma escolha decisiva: permanecer alinhada a Trump, à custa de sua liderança popular, ou empunhar a bandeira da democracia, correndo os riscos do retorno.
Um homem mostra fotos de pessoas desaparecidas em meio aos escombros na praia de Los Cocos, em Caraballeda, estado de La Guaira, Venezuela, em 1º de julho de 2026, após os dois terremotos ocorridos em 24 de junho — Foto: JUAN BARRETO / AFP

