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O risco do ‘acelera e freia’

O ESTAÃO DE SP / NOTAS E INFORMAÇÕES

 

Concessionárias de rodovias brasileiras começaram a testar uma nova ferramenta para flagrar os motoristas que trafegam acima do limite de velocidade. Diferentemente do atual modelo de radares fixos que registram a velocidade durante a passagem do veículo num determinado ponto, os equipamentos conseguem acompanhar o deslocamento de motos, carros, ônibus e caminhões por um trecho da via e calcular de forma precisa a sua velocidade média. E os resultados dos experimentos não são nada animadores.

 

O monitoramento, segundo reportagem do Estadão, revelou que os motoristas abusam do comportamento “acelera e freia”, trafegando acima da velocidade permitida e driblando a fiscalização para escapar de multas e da perda de pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Ocorre que a lei da física é incontornável: a velocidade média é a razão entre a quilometragem percorrida e o tempo gasto para percorrê-la. Se o motorista chegou a um ponto antes do tempo estimado, é porque infringiu outra lei, a de trânsito. Ou seja, a tecnologia é capaz de detectar e denunciar o condutor imprudente.

 

Num trecho monitorado no Rodoanel, metade dos carros, segundo a concessionária SPMar, excedeu o limite de velocidade, trafegando em média a 110 km/h onde a velocidade máxima permitida era de 100 km/h. E os dados em relação aos caminhões e ônibus impressionam ainda mais: 9 em cada 10 veículos pesados circularam a uma velocidade média acima do limite de 80 km/h. Como se vê, os condutores se arriscam e, pior, põem em risco a vida daqueles que cruzam seu caminho.

 

Não é preciso ser especialista em tráfego para depreender que o problema é bem maior do que o registrado numa ou noutra rodovia. O trânsito em todo o Brasil é perigoso. Em 2024, o País registrou mais de 37 mil mortes no trânsito, segundo dados divulgados recentemente pelo DataSUS, pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). Contra essa triste realidade, há alguns bons exemplos a serem seguidos. Em vigor há 20 anos, o monitoramento por velocidade média na Europa tem salvado vidas: na Itália, a queda da mortalidade foi de 56%, enquanto na Escócia foi de 70%.

É urgente que o Brasil enfrente as suas inquietantes estatísticas de trânsito e se aproprie de todas as ferramentas tecnológicas disponíveis para frear a escalada da violência nas ruas e nas estradas. Já existem condições tecnológicas para que os radares de velocidade média sejam instalados por aqui. Para isso, ainda faltam marcos jurídicos e regulatórios que permitam que se avance da fase de testes, hoje meramente educativa, para a fase de fiscalização.

 

Logo, reformas legislativas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e medidas de regulação são necessárias. Mas tudo isso exigirá engajamento da sociedade e do poder público, que precisa convencer a população de que não existe “indústria da multa” para quem respeita a lei. Também é necessário que as próprias autoridades políticas se convençam de que salvar vidas importa mais do que qualquer ganho eleitoral obtido na base do discurso irresponsável.

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