Crise financeira das empresas reforça necessidade de ajustar contas públicas
Por Editorial / O GLOBO
Não faltam análises sobre os efeitos nocivos da alta taxa de juros no endividamento público e na inadimplência das famílias. A saúde financeira das empresas também sofre com o dinheiro mais caro. No ano passado, 80 companhias entraram com pedidos de recuperação extrajudicial, um recorde (quase sete vezes os pedidos feitos em 2020). De janeiro para cá, foram quase dez. Sempre haverá empresas em dificuldade por falhas de gestão. Mas, quando a quantidade se avoluma nessa magnitude e se espalha por vários setores, é razoável suspeitar de causa estrutural. Num ambiente hostil em que o juro segue nas alturas por tempo prolongado, dívidas corporativas disparam e comprimem o caixa. Mais uma razão para o governo rever sua política expansionista de gasto, que mina a confiança, pressiona a inflação e força o Banco Central a manter os juros no alto.
Como mostrou reportagem do GLOBO, o endividamento das grandes companhias não para de crescer. Uma amostra com 129 empresas dá a dimensão do problema. Em 2020, elas somavam uma dívida de R$ 1,12 trilhão. Em cinco anos, o montante cresceu 53%, para R$ 1,71 trilhão, segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria. Mesmo no competitivo setor do agronegócio tem havido sinais de alerta. Os pedidos de recuperação judicial chegaram perto de 2 mil no ano passado, crescimento de 56% ante 2024. “A recuperação extrajudicial se tornou a alternativa natural para empresas que ainda mantêm condições de negociação com seus principais credores, têm algum fluxo de caixa, mas precisam de um tempo para estruturar esse processo”, diz Brenno Mussolin Nogueira, do Rayes e Fagundes Advogados.
Mesmo com a expansão da economia acima do previsto, muitas companhias não conseguiram encontrar o equilíbrio. Do setor de saúde ao siderúrgico, várias enfrentam dificuldades. O índice que mede a capacidade das empresas médias listadas em Bolsa de pagar o custo de suas dívidas segue preocupante. Não é coincidência que, no período de cinco anos, a taxa básica de juros tenha subido de 2% para 15%. O corte recente para 14,75% não muda o cenário. Desde fevereiro de 2022, o Brasil tem uma Selic de dois dígitos. O juro real — descontada a inflação — está entre os três mais altos do planeta. “O choque dos juros no Brasil é sistêmico, mas o grau de impacto em cada companhia depende da estrutura de capital e da eficiência da operação”, diz Rodrigo Gallegos, sócio da consultoria RGF, especialista em reestruturação. A Selic perto de 15%, diz ele, representa 18% a 30% para quem empresta dinheiro, em virtude do spread bancário.
E não há garantia de queda significativa no futuro. Se o endurecimento da política monetária desde 2020 tivesse ocorrido em período de corte de impostos, a pressão sobre o caixa das empresas teria sido menor. Mas aconteceu o oposto. A carga tributária equivalia a 31,2% do Produto Interno Bruto em 2022, no atual governo aumentou para 32,3%. Não há sinal mais eloquente da necessidade de mudança na política fiscal.

