MST ocupa área em Triunfo (RS) — Foto: Victor Frainer/MSTSão nitidamente eleitoreiras as medidas anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para afagar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), aliado histórico do petismo que cobra do governo mais ações de reforma agrária. Na largada do ano eleitoral, Lula prometeu um pacote de R$ 2,7 bilhões para iniciativas no setor. Segundo o Planalto, elas incluem desapropriações em seis estados (São Paulo, Bahia, Pará, Pernambuco, Sergipe e Maranhão).O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, afirmou que os novos assentamentos visam a resolver “conflitos antigos e históricos do país”. Ora, se são antigos e históricos, chama a atenção que Lula — principal figura do partido que governou o Brasil em 16 dos últimos 23 anos — só tenha atentado para eles no último ano de seu terceiro mandato, justamente quando pretende disputar a reeleição. Em julho passado, o MST divulgara carta cobrando avanços na reforma agrária e pedindo que o governo retomasse políticas de incentivo à agricultura familiar. Depois da queixa, Lula recebeu lideranças do movimento no Planalto e entregou títulos de regularização fundiária.O caráter político das iniciativas é indisfarçável. Na solenidade de encerramento do 14º Encontro Nacional do MST, em Salvador (BA), na sexta-feira passada, Lula defendeu o engajamento de integrantes do movimento nas eleições (o MST pretende lançar 18 candidaturas legislativas, 6 delas à Câmara dos Deputados). As medidas anunciadas podem ser oportunas para as pretensões eleitorais de Lula, mas não são para o país, já que o MST é apenas parte da discussão sobre conflitos fundiários. A questão envolve o agronegócio, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso. Representantes da bancada do agro disseram que esperarão a divulgação da lista de terras para se pronunciar a respeito das desapropriações.
Por sua complexidade, o tema não enseja soluções imediatistas. No início de dezembro, o Senado aprovou Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que cria um marco temporal para a demarcação de terras indígenas, dando aos povos originários direito apenas às terras que ocupavam até a promulgação da Constituição de 1988. Não é o que entende o STF, que tem rechaçado a tese nas ações que tramitam na Corte. Também está em discussão a forma de indenização aos proprietários que, de boa-fé, ocupam áreas nessas terras. A proposta apresentada pela Advocacia-Geral da União (AGU), cobrindo 60% do valor via precatórios, tem sido alvo de críticas. Além disso, a Câmara aprovou em novembro Projeto de Lei restringindo desapropriação para reforma agrária quando a propriedade não cumpre função social. Ela só ocorreria no caso de terras improdutivas.
Na lista de terras desapropriadas a que O GLOBO obteve acesso, está a Fazenda Nova Alegria, em Felisburgo (MG), onde cinco trabalhadores do MST foram assassinados por pistoleiros em 2004. É verdade que o país deve enfrentar os conflitos agrários sangrentos, mas eles não serão resolvidos numa penada. Os acenos populistas de Lula são preocupantes sobretudo porque, diante de tema delicado debatido no âmbito do Legislativo e do Judiciário, alimentam a insegurança jurídica e afastam investidores. E estão longe de promover a paz no campo, como quer fazer crer o governo. Ao contrário, medidas controversas só servem de combustível a novos conflitos.