Conter a sangria no trânsito brasileiro
Pesquisa da organização Vital Strategies, a partir de dados do Ministério da Saúde, mostra que o número de mortes no trânsito no país não só continua em ascensão como atingiu o maior patamar desde 2016. Motocicletas puxam a alta do indicador e representam desafio para políticas públicas no setor.
Após oscilar entre 42 mil e quase 45 mil mortes de 2010, início da série, a 2014, o número passou por uma trajetória de queda até chegar ao menor nível em 2019, com 31.945. A partir daí, o indicador só subiu, atingindo 37.150 em 2024, dado mais recente. Trata-se do maior número desde 2016 (37.345) e de um aumento de 6,5% ante 2023 (34.881).
Em 2024, pela primeira vez foram registrados mais óbitos no Nordeste (11.894) do que no Sudeste (10.995), região mais populosa até então líder do ranking nefasto —e que naquele ano tinha uma frota de 59 milhões de veículos, mais que o dobro da nordestina (22,3 milhões), segundo a Secretaria Nacional de Trânsito.
No país, pessoas em motocicletas representaram 41,7% do total de mortes no trânsito (15.500) em 2024, ante 39% em 2023. No Nordeste, a taxa foi de 51,4%, inferior apenas à do Norte (53%) e bem superior à do Sudeste (34,7%); Centro-Oeste e Sul ficaram com 38,5% e 30,5%, respectivamente.
Entre 2019 e 2025, o número de motocicletas licenciadas no Brasil passou de 22,7 milhões para 29 milhões, de acordo com o Ministério dos Transportes.
O fenômeno está relacionado à precariedade do sistema de transporte público, que estimula a mobilidade por motos, e aos serviços de entrega por aplicativos, que expandiram o uso desse tipo de veículo como ferramenta de trabalho e geração de renda.
Relatório do governo federal de 2024 aponta que, dos 34,2 milhões de proprietários de motos, 17,5 milhões (53,8%) não tinham CNH. Nesse sentido, foi bem-vinda a resolução do Conselho Nacional de Trânsito, de dezembro, que reduziu os custos para a obtenção do documento.
A ampliação do número de motociclistas e de mortes, porém, exige mais ações integradas de governos em várias frentes.
É preciso ampliar e fortalecer campanhas educativas e sistemas de fiscalização, além de investir em infraestrutura —segundo pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes de 2025, 6 das 12 rodovias classificadas como péssimas estão no Nordeste.
O Programa Nacional de Segurança de Motociclistas, lançado pelo governo em 2025, aborda essas ações. Espera-se que as metas não fiquem só no papel. Enquanto estados e municípios não melhorarem o transporte público, motos continuaram a ser alternativa de mobilidade.
Ademais, deve-se modernizar a engenharia de tráfego, com sinalização específica, redução de limites de velocidade —medida considerada impopular, mesmo respaldada por evidências— e faixas exclusivas para motos, como a faixa azul paulistana, que já foi replicada em outras cidades.

