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Tragédia das enchentes em São Paulo expõe deficiências urbanas no país

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

Fica a cada dia mais evidente que as grandes cidades brasileiras continuam despreparadas para enfrentar o agravamento das tempestades e enchentes resultante das mudanças climáticas. Faltam obras essenciais e até proteções básicas para evitar tragédias, como a do casal de idosos cujo carro foi arrastado na semana passada por uma enxurrada no bairro de Campo Limpo, em São Paulo. Os corpos foram encontrados dois dias depois. Faltavam simples muretas de proteção na área, onde foram registrados ao menos 25 casos de alagamento desde 2017, segundo reportagem do GLOBO.

 

Não se trata de caso isolado. Levantamento da Confederação Nacional de Municípios revela que, entre 2013 e 2023, foram registradas 2.143 mortes causadas por chuvas, média de 18 por mês. O dado comprova que as prefeituras não têm investido o suficiente para proteger a população.

 

Houve em São Paulo 663 enchentes ou alagamentos no ano passado, 47% acima de 2024 e 164% acima de 2021. A Prefeitura argumenta que o dado inclui não apenas alagamentos relacionados às chuvas, mas também os decorrentes de estouro de tubulação — e afirma que o número ficou abaixo da média de 751 entre 2010 e 2024, de acordo com o Centro de Gerenciamento de Emergência Climáticas. De todo modo, o aquecimento do planeta permite prever que as chuvas não arrefecerão. Ao contrário. De 1941 a 1950, o volume anual sobre São Paulo somava 12 mil milímetros. Entre 2011 e 2020, subiu para 16 mil milímetros

 

Cobertas de asfalto, concreto ou cimento, as cidades brasileiras carecem de áreas capazes de absorver as águas. Depois das enchentes trágicas de Pequim em 2012, o arquiteto Kongjian Yu concebeu as cidades-esponja como solução. Nelas, cursos d’água são ladeados por parques lineares, calçamentos são permeáveis e há praças capazes de reter grandes quantidades de água, depois escoada. Várias dessas ideias têm sido adotadas no Brasil — a prefeitura paulistana afirma que a cidade já tem 473 jardins de chuva e diz que, dos 120 parques municipais, 23 são lineares. Não se pode também descuidar da construção de piscinões subterrâneos, para recolher o excesso de água, bombeada para os rios (como ocorre nas regiões do Pacaembu, em São Paulo, ou da Praça da Bandeira, no Rio). Para não falar nas simples, mas eficazes, muretas de contenção.

 

A construção do piscinão prometido pela prefeitura para o ano passado na região do acidente que vitimou o casal paulistano está atrasada (segundo a prefeitura, as escavações esbarraram numa rocha). Estudos mostram, contudo, que são necessários não só um, mas sete piscinões, além de um parque linear, para evitar alagamentos na área.

 

Grandes cidades brasileiras costumam ter inúmeros córregos canalizados que transbordam para a superfície nos temporais. Para evitar a sucessão de tragédias, é preciso realizar as obras necessárias e prestar atenção às melhores práticas adotadas nas cidades-esponja pelo mundo. As mudanças climáticas não podem estar à frente da resposta dos governos.

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