Investida contra Banco Master deve ir até o fim
Por Editorial / O GLOBO
As autoridades não podem baixar a guarda nas investigações que apuram as suspeitas de fraudes que levaram à liquidação extrajudicial do Banco Master, de Daniel Vorcaro. Com autorização do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quarta-feira a segunda fase da Operação Compliance Zero em endereços ligados a Vorcaro, a seus parentes e a outros empresários. Foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão e sequestrados ou bloqueados bens e valores de mais de R$ 5,7 bilhões. A investigação precisa ir até o fim — e deveria tramitar da forma mais transparente possível, e não sob sigilo.
Em seu despacho, Toffoli, relator do caso no Supremo, criticou a demora da PF para agir. Ele autorizou a operação no último dia 7. Na segunda-feira, dia 12, deu 24 horas para os federais saírem às ruas, mas levou perto de 40 horas. Como na ação que prendeu Vorcaro em novembro, desta vez outro suspeito foi detido prestes a deixar o país: Fabiano Zettel, cunhado e figura próxima ao banqueiro, tentava embarcar para Dubai. Ainda que isso possa alimentar especulações sobre vazamento, é essencial enfatizar que a PF não deixou de cumprir seu dever. E, sobretudo, que Toffoli não cedeu às pressões para dificultar a blitz contra o Master.
A PF investiga crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais. Também foram alvos da operação o investidor Nelson Tanure (cujos fundos injetaram R$ 2,5 bilhões no Master) e o fundador da Reag Investimentos, João Carlos Mansur (a Reag gere fundos suspeitos e já fora alvo de operação contra o PCC). Investigadores se queixaram de que manter as provas lacradas no STF, como determinara Toffoli, traria riscos como a deterioração de dados digitais. Ele então autorizou que elas sejam encaminhadas à Procuradoria-Geral da República, mas não suspendeu o sigilo sobre o caso.
Desde a liquidação do Master, tem crescido a pressão sobre o Banco Central (BC), que tomou a medida com base em critérios técnicos para proteger o sistema financeiro. Em decisão que causou estranhamento, Toffoli determinou uma inusitada acareação às vésperas do Ano-Novo entre Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília envolvido numa tentativa de salvar o Master e o diretor de Fiscalização do BC. Parecia tentativa de intimidação. Diante das críticas, a acareação foi esvaziada.
Decisões do Tribunal de Contas da União (TCU) também causaram apreensão. O ministro Jhonatan de Jesus chegou a determinar uma inspeção no BC e admitiu até a possibilidade de reverter efeitos da liquidação. Nunca acontecera algo parecido. Depois recuou. O TCU reconheceu que a liquidação de instituições financeiras é competência exclusiva do BC. Paralelamente, houve campanha intensa contra o BC nas redes sociais. Influenciadores relataram ter recebido propostas milionárias para divulgar versões favoráveis a Vorcaro.
São conhecidas as relações de Vorcaro em Brasília. É previsível que haja tentativas de livrá-lo, mas isso não pode intimidar as investigações. O Master foi liquidado em meio a suspeitas graves de fraudes bilionárias. É, portanto, dever de todas as autoridades — do STF, da PF ou de qualquer braço do Estado — investigá-las a fundo. Mais que isso, Toffoli não pode continuar a manter sob sigilo processo sobre o qual pairam tantas dúvidas e especulações.

