Bolsonarismo sofre baque com operação da PF
Por Editorial / o globo
Depois da hesitação incompreensível na cassação da então deputada foragida Carla Zambelli (PL-SP), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), soube corrigir o rumo no caso dos também fugitivos Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ), cujos mandatos foram cassados pela Mesa da Casa. Espera-se que atue também com rigor perante as acusações que agora pesam contra outros dois deputados do PL fluminense, Carlos Jordy e Sóstenes Cavalcante, líder do partido na Câmara. Ambos foram alvo de operação da Polícia Federal (PF) para coibir desvios de recursos da cota parlamentar.
As investigações expõem uma faceta do bolsonarismo que nada tem de ideológica e vai além do golpismo ou dos ataques às instituições democráticas: a corrupção rasteira com verbas parlamentares. Os fatos se chocam com o feroz discurso moralizador que sempre se ouviu desses deputados.
A cota parlamentar é destinada a custear gastos com a atividade legislativa, como viagens, refeições ou funcionários contratados no gabinete. Não é incomum que recursos sejam desviados para outros fins. A modalidade mais conhecida é apelidada “rachadinha” — servidores do gabinete devolvem parte de seus ganhos ao político que os contrata. Foi essa acusação que pesou contra o então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), cujo caso foi arquivado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), sob o argumento da violação de sigilos fiscal e bancário.
Desta vez, as investigações das verbas destinadas a Jordy e Sóstenes levaram à Operação Galho Fraco, da PF. Policiais executaram mandados de busca e apreensão em Brasília e no Rio para apurar se “agentes políticos, servidores comissionados e particulares teriam atuado de forma coordenada para o desvio e posterior ocultação de verba pública”. Os alvos são suspeitos de cometer os crimes de peculato, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa. A operação da PF encontrou, num endereço de Sóstenes em Brasília, R$ 430 mil em dinheiro vivo (ele alega que não depositara o valor recebido pela venda de um imóvel).
A investigação sugere uma forma mais sofisticada de “rachadinha”. De acordo com a PF, os deputados usavam servidores comissionados nos gabinetes para desviar os recursos por meio de pagamentos fraudulentos a empresas. Uma delas é a Harue Locação de Veículos Ltda., locadora que, diz o inquérito, é propriedade de um assessor de Jordy e era gerenciada por seus familiares para receber por serviços não prestados e embolsar o dinheiro. Outra empresa investigada sob suspeita de uso para pagamentos de fachada é a Amazon Serviços e Construções. Ao todo, a PF identificou, entre 2023 e 2024, R$ 27 milhões movimentados por assessores do PL sem origem identificada. Atendendo a pedido da Procuradoria-Geral da República, o ministro do STF Flávio Dino determinou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático dos deputados e demais envolvidos.
As investigações ainda estão em curso, e é incerta a extensão do esquema. Será preciso aguardar o resultado para tirar conclusões criminais a respeito. Todos os parlamentares e assessores devem ter o direito a fornecer explicações dos fatos e a se defender na Justiça. De todo modo, politicamente, a operação representa sem dúvida novo baque para a bancada fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro, logo depois da perda de três de seus expoentes, todos cassados.

