Chile polarizado agora dá guinada à direita
FOLHA DE SP
Democracia acostumada por décadas à alternância do poder entre centro-direita e a centro-esquerda, o Chile consagrou no domingo (14) o ultraconservador José Antonio Kast, do Partido Republicano, que derrotou na eleição presidencial a governista Jeannette Jara, do Partido Comunista.
Kast obteve 58,1% dos votos válidos, segundo o Serviço Eleitoral do Chile, enquanto a ex-ministra do Trabalho do atual presidente, Gabriel Boric, ficou com 41,8%, mesmo contando com o apoio da máquina governamental e de todos os setores da esquerda.
Mais do que se sobrepor, nas urnas, a um governo desgastado na opinião pública, Kast soube capturar a percepção de insegurança da população e sua contrariedade com o aumento da imigração, trazer tais temas ao centro do debate e apresentar-se como liderança capaz de equacioná-los.
Aprendeu com seus fracassos nas duas eleições presidenciais anteriores ao esquivar-se de promessas caras ao conservadorismo chileno, como o veto ao casamento homoafetivo e às brechas ao direito de aborto, limitadoras de seu potencial de inserção no eleitorado de centro.
Mesmo entusiasta declarado da ditadura militar de Augusto Pinochet, Kast manteve distância de discursos autoritários, disruptivos e antissistema observados na ultradireita ocidental.
Até por pragmatismo, Kast mantém um compromisso com o mesmo Estado de Direito que avalizou sua vitória eleitoral e o investirá na liderança do Poder Executivo em março. Compor-se com setores de centro-direita do Congresso será chave para o êxito de sua gestão.
Ao propor controles imigratórios, distanciou-se do modelo persecutório de Donald Trump, nos Estados Unidos. Ao prometer um corte de US$ 6 bilhões nos gastos públicos em 18 meses e a redução do tamanho do Estado, mostrou intenção de preservar os atuais programas sociais.
Num país com bons fundamentos macroeconômicos, reformas liberais bruscas e agressivas, ao estilo do argentino Javier Milei, mostram-se desnecessárias. O Chile tem o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da América do Sul e mantém contas públicas e inflação sob controle.
Sua dívida pública está pouco acima dos 40% do PIB (são 90% no Brasil, pelos critérios do FMI), pagando juros em torno de 5% anuais (15% aqui).
A vitória da direita se soma a outras recentes no continente. Assim foi na Argentina, onde Milei, eleito em 2023, voltou a mostrar força no pleito legislativo deste ano; na Bolívia, onde o centro-direitista Rodrigo Paz Pereira venceu o pleito presidencial em outubro; e no Equador, com a reeleição de Daniel Noboa em abril.
As instituições chilenas se fortaleceram no período de estabilidade política e econômica a partir da redemocratização, em 1990, e resistiram à turbulência iniciada com os protestos populares de 2019. Kast, felizmente, parece ter compreendido isso.

