Obstáculos econômicos e políticos à queda dos juros
O Banco Central estima que a inflação acumulada em 12 meses cairá até 3,2% —muito perto da meta oficial de 3%— em algum momento do segundo trimestre de 2027, momento que por ora é o horizonte relevante da política monetária, quando deve ser mais intenso o efeito da alta dos juros.
A projeção consta do comunicado em que o BC divulgou sua decisão de manter sua taxa, a Selic, em sufocantes 15% ao ano. Embora o IPCA pareça rumar para patamares confortáveis, as perspectivas de o país voltar a conviver com juros civilizados ainda estão nubladas por obstáculos econômicos e políticos.
Pelas projeções mais consensuais de analistas de mercado, coletadas em pesquisa do BC, deve haver redução até agressiva da Selic em 2026 —o que, em tese, coincide com a conveniência governista em ano eleitoral. Seriam cinco cortes de 0,5 ponto percentual, a partir da segunda reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março, e mais um de 0,25 em dezembro.
Nesse cenário, a próxima administração do país assumirá em 2027 com juros de 12,25% anuais. Note-se que essa ainda será uma taxa muito elevadíssima, incompatível com crescimento sustentável e contaminada por problemas fiscais e incertezas diversas.
As expectativas do mercado para a evolução da inflação são menos otimistas que as do BC, apontando para um índice de 3,8% ao final de 2027. As medidas da inflação nos serviços, mais resistente, ainda ficam em torno de 6% anuais, algumas em alta, ante um IPCA de 4,4% acumulado nos 12 meses até novembro.
Ou seja, alguns indicadores centrais para a política monetária ainda estão fora do lugar. Talvez por isso o comunicado da última reunião do Copom não tenha dado indícios claros de início do ciclo de reduções dos juros.
Por enquanto, segundo o próprio comando do BC, faltariam as condições necessárias para o começo do afrouxamento monetário. Ademais, há questões políticas que podem vir a ser consideradas empecilhos no caminho para taxas de juros mais baixas.
Após as eleições presidenciais, o vencedor, qualquer que seja ele, terá de enfrentar uma situação orçamentária dificílima, que vai requerer medidas imediatas.
O resultado do pleito será decisivo para a formação das expectativas a respeito do destino econômico imediato do país. A esse respeito, restam evidentes sinais de que a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afetaria preços essenciais, como a taxa de câmbio —ao menos até este momento, em que o petista não demonstra nenhuma preocupação com o ajuste das contas públicas.
Caso os candidatos mais competitivos não apresentem planos críveis de contenção de déficits e da dívida, maior será o risco de turbulência financeira. A não ser que expectativas e inflação corrente apontem clara tendência de queda, a hipótese de tensão no mercado pode fazer com que o BC venha a ser mais cauteloso.

