Há muito a explicar no caso Master
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Dois meses após acertadamente reprovar a compra de parte do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), o Banco Central (BC) decretou ontem a liquidação extrajudicial do Master, cujo dono, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal em aparente tentativa de fuga do Brasil.
Embora a decisão do BC soe como um epílogo para o banco de Vorcaro como instituição financeira, o caso ainda vai pairar por muito tempo sobre o sistema financeiro e sobre o mundo político. Muita gente deve explicações e esclarecimentos sobre o escândalo – a começar pelo próprio Banco Central, sob cuja supervisão o Master atuou com temeridade gritante.
Outra entidade que precisa dar explicações é o BRB. Mesmo sem ter a necessária autorização da Câmara Legislativa do Distrito Federal (DF) para o negócio com o Master, o BRB anunciou a transação em março deste ano alardeando que se tratava de uma excelente oportunidade.
Somente em agosto, e por determinação da Justiça, os legisladores do DF deram seu parecer sobre um negócio estimado em R$ 2 bilhões. Àquela altura o BC já vinha, semanas a fio, avaliando a propriedade do negócio, que vetaria no mês seguinte. Notícias sobre atividades obscuras envolvendo o Master pululavam na imprensa.
Ainda assim, a Câmara do DF levou apenas uma tarde para aprovar a compra do Master pelo BRB. Consta em Brasília que Vorcaro tem excelentes relações com poderosos membros do governo local e do Congresso Nacional, como o senador Ciro Nogueira e com o deputado Arthur Lira.
Agora, a investigação da PF e do Ministério Público Federal revela que tudo é muito pior do que parecia ser. Indícios de que o Master vendeu R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao BRB foram descobertos. Além disso, o banco de Vorcaro entregou documentos falsos ao BC, numa tentativa de tornar justificável a operação com o banco público do Distrito Federal.
Tudo sugere que a compra do Master pelo BRB faria parte de uma encenação para encobrir fraudes bilionárias do banco de Vorcaro. Como o BC vetou o negócio com o banco público, o Master tentou então uma salvação por meio de um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e um grupo de investidores árabes desconhecidos. O arranjo suspeitíssimo felizmente teve vida curta. Menos de um dia depois, a PF prendeu Vorcaro e o BC anunciou a liquidação do Master.
É importante reconhecer que, desde que o negócio entre BRB e Master foi anunciado, o BC vem atuando como se espera: de forma técnica e sem arroubos. Mas não foram poucas as tentativas de constranger a autarquia. Como os meses corriam e a aprovação do negócio entre BRB e Master não saía, lideranças do Centrão tentaram emplacar um projeto de lei que permitiria ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC, prerrogativa exclusiva do presidente da República. Embora não tenha avançado, a estapafúrdia proposta dá a dimensão dos interesses nada republicanos envolvidos no caso.
O crescimento vertiginoso do Master ocorreu por meio de uma estratégia bastante temerária. O banco oferecia produtos bancários, como CDBs, com rendimentos muito superiores aos do mercado como um todo, usando o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como chamariz. Criado nos anos 90, o FGC recebe aportes de instituições financeiras para garantir estabilidade aos investidores.
Ocorre que todo e qualquer investimento, por mais seguro que seja, envolve riscos e, na prática, o que o Master fez foi usurpar o FGC. O banco de Vorcaro usava os recursos dos investidores para fazer seus negócios nebulosos contando com o apoio do fundo, como se fosse o parente que gasta o dinheiro do aluguel sabendo que os demais membros da família economizaram recursos para pagá-lo.
Foi só após o Master ter se transformado num risco excessivo para o FGC que as regras de contribuição dos associados ao fundo foram endurecidas.
Agora, só resta esperar que todo e qualquer ente público com negócios com o Master, especialmente após a negativa ao acordo com o BRB, seja investigado. E que não seja necessário outro caso como esse para que regras que garantem o bom funcionamento do sistema financeiro sejam ajustadas.

