Escândalo Master
Quebras de bancos por vezes expõem, além de problemas de gestão e supervisão, conexões políticas e até suspeitas de práticas criminosas —quando se convertem em escândalos. Foi assim, por exemplo, com o Econômico e o Nacional nos anos 1990, e o caso do Master toma agora esse caminho.
Nesta terça (18), o Banco Central decretou a liquidação de quase todo o conglomerado da instituição, horas depois de, na noite de segunda (17), a Polícia Federal ter prendido seu controlador, Daniel Vorcaro, em investigação de fraude estimada em R$ 12 bilhões.
Tudo está ainda por ser esclarecido e provado, como é preciso ressalvar, mas os desdobramentos certamente não se limitarão mais à esfera bancária.
Além de Vorcaro e seu sócio Augusto Lima, a Operação Compliance Zero, da PF, cumpriu outros cinco mandados de prisão, mais buscas e apreensões que incluíram a sede do BRB, banco pertencente ao governo de Brasília que em março anunciou a compra do Master, em operação posteriormente vetada pelo BC. O presidente da instituição foi afastado por decisão judicial.
Já causava estranheza, desde o princípio, o negócio fechado com o banco distrital —um resíduo dos tempos, felizmente deixados para trás, em que cada unidade da Federação controlava uma ou mais instituições financeiras, em geral usadas conforme a conveniência dos governantes.
São sabidas as ligações de Vorcaro com políticos como o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), por sua vez próximo do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Não parece coincidência que, quando se finalizava a análise técnica da operação BRB-Master, o centrão tenha articulado um projeto descabido que permitiria ao Congresso demitir dirigentes do BC.
Embora não se vejam riscos para a solidez do sistema bancário, a derrocada do Master não deixará de ter impactos traumáticos. Em especial, para o Fundo Garantidor de Créditos, formado por contribuições das instituições para cobrir parte das perdas de clientes em casos de quebra. Desta vez, o FGC arcará com até R$ 41 bilhões para 1,6 milhão de investidores, recorde em sua história.
O Master era conhecido pela atuação agressiva no mercado, em particular com a venda de CDBs que prometiam rentabilidade elevada com a garantia do fundo bancado por todo o sistema. De acordo com a PF, fez também coisa muito pior —uma carteira de crédito fictícia vendida ao BRB. Duvida-se até do interesse divulgado pela Fictor Holding Financeira na compra do banco.
É inevitável constatar que a supervisão do BC deixou a desejar na prevenção do agravamento da crise do Master. Desde que ela se tornou evidente, ao menos providências foram tomadas, em especial voltadas para a proteção ao FGC. Caberá doravante às autoridades, incluindo a PF e o sistema de Justiça, esmiuçar a extensão e a gravidade do caso, com punição dos responsáveis.

