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COP30 descumpre protocolos de calor e infraestrutura contidos em carta da ONU

Por Rafael GarciaAna Lucia Azevedo e  Luis Felipe Azevedo / O GLOBO

 

 

Sessão Plenária Geral dos Líderes Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas COP 30.Sessão Plenária Geral dos Líderes Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas COP 30. — Foto: Ueslei Marcelino/COP30

 

Em mais uma frente de desgaste para a COP30 após a crise de hospedagem que antecedeu a conferência, a Organização das Nações Unidas (ONU) cobrou em uma carta enviada ao governo brasileiro um plano para lidar com problemas de segurança e infraestrutura nas instalações que abrigam a conferência, realizada no Parque da Cidade, em Belém. A reclamação foi feita na quarta-feira, um dia após um grupo de manifestantes forçar a entrada na Blue Zone (zona azul), área que concentra as principais negociações da conferência e é controlada pela ONU.

 

O teor do documento, destinado ao presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, foi antecipado pela agência Bloomberg e confirmado pelo GLOBO. O secretário-executivo da Convenção do Clima da ONU (UNFCC), Simon Stiell, afirmou que a invasão dos manifestantes que resultou em danos à estrutura de entrada do evento ocorreu por falhas no esquema de proteção que havia sido prometido.

 

“Autoridades brasileiras falharam em agir ou em cumprir o plano de segurança acordado”, escreveu Stiell. “Isso representa uma violação séria do arcabouço de segurança estabelecido e levanta preocupação significativa com o cumprimento das obrigações de segurança do país anfitrião”.

 

Stiell citou ainda que o gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva instruiu a Polícia Federal a não intervir para dispersar alguns manifestantes naquele mesmo dia. Os problemas descritos na carta vão da falta de efetivo de segurança no local do incidente ao descumprimento de uma zona de exclusão que não estava sendo implementada para a circulação de manifestantes.

 

O tumulto de terça-feira aconteceu no setor de credenciamento da conferência e começou após um grupo que participou da Marcha Global Saúde e Clima entrar em confronto com os seguranças do evento — pelo menos um dos seguranças ficou ferido no rosto.

 

As reclamações sobre infraestrutura passam por goteiras e vazamentos em alguns dos pavilhões, e más condições em banheiros, vários deles sem água e com portas quebradas já no segundo dia da conferência. As fortes chuvas em Belém causaram problemas dentro do local, disse Stiell, com água entrando “no teto e nas luminárias, causando não apenas transtornos, mas também potenciais riscos à segurança devido à exposição à eletricidade”.

 

A Casa Civil afirmou, em nota, que “não esteve envolvida na tomada de decisão das forças de segurança pública referente aos protestos de 11 de novembro” e destacou que “todas as solicitações da ONU têm sido atendidas”. Já André Corrêa do Lago minimizou na quinta-feira o atrito com a Convenção do Clima da ONU, afirmando que já foi resolvido.

 

— A UNFCCC já se expressou dizendo que todos os problemas com segurança foram completamente resolvidos. Isso já não é mais uma questão. Todos os itens relacionados a isso foram contemplados — disse em coletiva. — E já podemos dizer que o ar-condicionado está muito melhor hoje. Era um problema técnico que já foi resolvido.

 

Calor intenso

Falhas no ar-condicionado de diversos locais da COP30 também foram lembradas pelo secretário-executivo da ONU. O calor foi uma reclamação constante dos participantes nos primeiros dias da conferência, mas as altas temperaturas também geram preocupação fora dos pavilhões.

 

A organização do evento tem estado na contramão das recomendações dos cuidados a tomar para evitar danos à saúde. Belém apresenta naturalmente temperaturas muito altas, pois tem clima equatorial — a umidade bloqueia o suor, o meio pelo qual o corpo elimina 80% do excesso de calor. No verão amazônico, que termina este mês, a capital paraense pode ter picos de temperatura de bulbo úmido de 31,5°C — índice que leva em consideração umidade, temperatura e vento para determinar de forma mais eficaz os efeitos das altas temperaturas no corpo humano.

 

Além dos problemas de ventilação nos espaços da COP, a conferência tem registrado longas filas para entrar nas zonas Azul e Verde — a espera ocorre sob forte calor e exposição ao sol. O Parque da Cidade também tem poucas áreas sombreadas e os postos de hidratação não têm sido suficientes devido à demanda. Para contornar a alta temperatura, participantes do evento passaram a adotar leques e guarda-sóis.

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS), parceira do Brasil no plano de adaptação a extremos, recomenda em seu site para que as pessoas “se mantenham na sombra. E lembrem que a temperatura sentida (isto é, a sensação térmica e não a aferida em termômetros oficiais) costuma ser de 10ºC a 15ºC mais elevada sob o sol.

 

Segundo o professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) Fabio Teixeira Gonçalves, situações como a descrita na Blue Zone nos últimos dias, com lotação de mais de oito mil pessoas e pouca ventilação, estressam o corpo.

 

— Quanto mais áreas sombreadas melhor, pois além do calor e umidade, a radiação solar aumenta ainda mais a temperatura corporal. É um componente a mais para que o corpo elimine o calor. Umidades de 60%-80%, temperaturas acima de 30°C mais radiação solar desequilibram nosso sistema de termorregulação, em especial, nos mais vulneráveis, como idosos, crianças e enfermos — explica Gonçalves.

 

Na última quarta-feira, a primeira-dama Rosângela Silva pediu desculpas aos artistas pelo calor durante o painel “Narrativas e histórias para enfrentar a crise climática”. No mesmo dia, um evento com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, no Pavilhão do Brasil, foi marcado pelo barulho de leque para amenizar o abafamento. Nem mesmo o ventilador extra deu conta.

 

O espaço interno da COP30 é de responsabilidade e administração da ONU. A prefeitura de Belém dá suporte em segurança e na zeladoria urbana. Segundo a prefeitura, as ações planejadas nessas áreas vêm sendo executadas diariamente.

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