Ciência de ponta para salvar amazônia e clima
O Brasil é uma terra de contrastes. Às vésperas da COP30, o mesmo país flagelado por narcomilícias completa a instalação do maior experimento científico do mundo numa floresta tropical, precisamente para desvendar o enigma de seu futuro na crise do clima.
A 80 km de Manaus, o projeto AmazonFace está pronto, como mostrou a Folha. São 96 torres de 35 metros de altura, dispostas em seis círculos com 30 metros de diâmetro. Três dos círculos injetarão, por meio de dois tubos sustentados pelas torres, dióxido de carbono (CO²) na parcela da mata ao longo de dez anos.
Os outros servirão como controle do experimento, injetando só o ar ambiente, para que se possa medir a variável do teste —aumento da concentração do gás de efeito estufa no lote.
O gasto de de R$ 260 milhões dos governos brasileiro e britânico em tamanha infraestrutura se explica pela necessidade de elucidar mistérios que cercam a interação complexa entre o bioma amazônico e a atmosfera submetida ao aquecimento global.
Especula-se que a preservação e a destruição da maior floresta tropical do planeta teriam papel decisivo nessa espiral alarmante. A amazônia estoca quantidade gigantesca de carbono na biomassa e no solo. Com desmatamento, ele atinge a atmosfera como CO², agravando o efeito estufa.
Mas há um efeito paradoxal na alta concentração desse gás, já que ele favorece o crescimento da vegetação por ser matéria-prima da fotossíntese. Quanto mais CO² na atmosfera, mais se expande a floresta, que retira mais carbono do ar e o fixa em sua biomassa. Contrabalança-se, assim, parte da tendência do aquecimento.
É o conhecido efeito de fertilização por CO², que não se sabe por quanto tempo prosseguirá. Tal sumidouro de carbono vinha compensando parte significativa das emissões mundiais, mas há indícios de que o ritmo de fixação esteja desacelerando.
Não se exclui que pare de vez e torne o bioma um emissor líquido, um cenário preocupante. Elevando a concentração de CO² em 50%, a valores que se projetam para as próximas décadas, o AmazonFace vai monitorar o comportamento da floresta para desfazer dúvidas sobre a hipótese de colapso, na qual decairia para uma mata mais seca e armazenaria menos carbono.
Há algo de admirável na capacidade de instituições nacionais como Unicamp e UFPA, em parceria com o MetOffice do Reino Unido, de erguer um portento científico como esse. Trata-se da melhor face do país, em que tudo o mais deveria espelhar-se.

