Um fenômeno de marketing
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O empresário Francisco Kertész é um fenômeno. Sócio do ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, na agência de publicidade que fez a vitoriosa campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 2022, Kertész é dono de uma produtora que, no atual mandato, conseguiu a proeza de vencer todas as concorrências que disputou na Caixa Econômica Federal para produzir campanhas publicitárias. Por competência ou coincidência (ou as duas coisas), essa taxa de sucesso de 100% se somou a outras duas concorrências vencidas por ele na Embratur, feitos que lhe garantiram R$ 12 milhões em contratos para prestar serviços ao governo. As informações se tornaram públicas graças a uma reportagem do Estadão.
Ao jornal, o ministro Sidônio Palmeira disse que não interferiu em favor das contratações e que se afastou da gestão de suas empresas após assumir, em janeiro deste ano, o comando da Secom como plenipotenciário marqueteiro do governo. Nesse caso, porém, não basta ser (ou se dizer) honesto. É preciso parecer honesto. Chamam a atenção, nesse caso, menos as evidências de eventuais irregularidades nas concorrências e mais as suspeitas em torno dessa notável coincidência, deixando no ar a sensação inquietante de privilégio travestido de normalidade – uma possível mistura de atributos técnicos com estreitos vínculos políticos e empresariais.
A atitude razoável a se esperar, ante relações tão próximas, seria simplesmente que o sócio do ministro não participasse das disputas pelas campanhas da Caixa, da Embratur ou de qualquer repartição do governo. Como isso não foi feito, é igualmente razoável esperar que surjam perguntas incômodas, sobretudo pelo histórico petista de aparelhamento do Estado e de confusão entre o público e o privado.
A desconfiança é compreensível. Afinal, por que todos os certames, para o mesmo cliente público, terminaram com o mesmo vencedor – que, por acaso ou não, é sócio do principal arquiteto da campanha presidencial de Lula da Silva e do PT? É certo que contratos públicos têm origem e continuidade, e que nem todo vínculo anterior implica irregularidade automática. Mas quando no currículo de um ministro do governo aparece a condição de marqueteiro da campanha presidencial do partido no poder – da mais recente e da próxima –, e seus parceiros se beneficiam sistematicamente em licitações ou cotações junto ao Estado, o mínimo que se exige é uma luz de transparência, e não esse véu de “simples coincidência” que envolvidos inevitavelmente tentam erguer.
Não se trata de condenar ninguém antecipadamente. Mas o distinto público tem o direito de perguntar como se articularam essas concorrências e por que justamente o parceiro do ministro Sidônio ganhou todas. Ou prevalecerá a impressão de que, como sempre acontece nas administrações petistas, quem tem padrinho (ou sócio) no governo jamais morrerá pagão.

