Jugo das narcomilícias agride os direitos humanos
Não se sabe o que o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), quis dizer ao qualificar de bem-sucedida a operação policial em favelas cariocas que na terça-feira (28) causou 121 mortes. Mas a maioria da população da capital concorda com ele.
Segundo o Datafolha, que ouviu amostra representativa dos moradores da metrópole fluminense, 57% consideram a incursão ao menos parcialmente exitosa. Questionados sobre quem teria morrido na ação, 81% disseram tratar-se na maioria (50%) ou na totalidade (31%) de bandidos.
O resultado pode surpreender pelo contraste com a visão estereotipada da defesa dos direitos humanos e jamais deveria servir de pretexto para o abuso do poder de polícia. Ainda assim, ele é compreensível se for levado em conta o grau de sofrimento e insegurança que essas narcomilícias sanguinárias impõem à população que convive com elas.
Para quem está próximo, em comunidades dominadas por grupos de rapazes armados com aparato de guerra, isso implica correr risco diário de morte, de o filho ser recrutado pela jagunçagem do asfalto, de a filha ver-se obrigada a prestar favores sexuais a tiranetes, de extorsões e justiçamentos cruéis como apenas sob a lei da selva se concebe.
Para quem vive mais afastado dos centros da narcobandidagem, trata-se de adaptar a rotina aos perigos dos tiroteios constantes, dos bloqueios de vias e do encontro fortuito com pelotões atarantados de fuzileiros do crime.
Ora, é a essência mesma dos direitos humanos de maiorias maciças da população que está sendo esmagada cotidianamente pelo narcotráfico do modo como ele se instalou no Rio de Janeiro, notadamente, mas não apenas lá.
Quando a crítica responsável cobra plano, inteligência e cooperação das agências do Estado para combater esse flagelo contemporâneo, ela não prega o pacifismo nesse enfrentamento. É preciso ingenuidade e desconhecimento para achar que se poderá deixar de empregar força letal contra milícias armadas até os dentes, dispostas a matar e morrer para assegurar o território de cujo domínio tiram o sustento.
A questão, obviamente, é minimizar danos e mortes —prender os criminosos e anular as lideranças é o objetivo, não matá-los— e encaixar operações estrepitosas como a de terça numa sequência de ações de outras naturezas que, associadas, possam ensejar o desmantelamento das quadrilhas e a liberação dos
Essa deveria ser a métrica para aferir o sucesso da operação, não a politicagem dos governos. As primeiras informações —poucos mandados executados, líderes fugitivos, comandos para a reação vindos diretamente de presídios— dão margem a ceticismo sobre o saldo da ação, a mais letal do tipo já registrada.
Mas esse saldo poderá ser menos ruim caso as autoridades se engajem nas melhores práticas para a sequência do combate ao totalitarismo criminoso.

