Inflação renitente reflete dificuldade do governo em reconhecer seus erros
Por Editorial / O GLOBO
Se a alta de preços — em especial dos alimentos — já azedava o humor dos brasileiros e fazia acender luzes de emergência no Palácio do Planalto, tudo ficou pior com a divulgação da inflação de fevereiro. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 1,3% — a maior para o mês desde 2003.
Não deu nem tempo de o governo comemorar a trégua de janeiro, quando subira apenas 0,16%, influenciado pelo pagamento de um bônus da hidrelétrica de Itaipu, que reduziu a conta de luz. Em fevereiro, o preço da energia saltou 16,80%, provocando o efeito contrário. O reajuste das mensalidades escolares também pesou no resultado (educação como um todo teve alta de 4,7%). Pelo menos, a alta dos alimentos desacelerou (eles subiram 0,7% ante 0,96% em janeiro). Mas alguns produtos registraram aumentos expressivos, como ovo (15,4%) e café (10,8%).
Não é apenas a inflação que preocupa, mas também a forma errática como o governo tem reagido. Inconformado com o preço dos alimentos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpou atravessadores e disse que poderá tomar “atitudes mais drásticas, porque o que interessa é levar comida barata para o prato do povo brasileiro”. Não explicou quais seriam. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, tentou minimizar a declaração, assegurando que não haverá pirotecnias ou intervenção nos preços. Mas, em janeiro, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, já assustara o mercado ao dizer que o governo buscava “intervenções” para baratear alimentos (depois negou que a palavra “intervenções” significasse intervenções). Os desacertos traduzem um fato singelo: o Planalto não sabe o que fazer.
No início do mês, depois de reuniões entre ministros e empresários, o governo tirou da cartola mais uma inciativa para baixar os preços. Anunciou que zeraria o imposto de importação sobre carne, açúcar, café, massas, sardinha, milho, biscoito, óleo de girassol e azeite. Apesar de correta, a medida terá pouco impacto, uma vez que fatores como clima e alta do dólar são determinantes na formação dos preços.
A realidade é que, em 12 meses, a inflação está em 5,06%, bem acima do teto da meta (4,5%). Esse cenário não favorece a queda dos juros, hoje em 13,25%. Já está contratado pelo menos mais um aumento na próxima reunião do Copom. Esperava-se que, depois, a situação arrefecesse. Mas o resultado de fevereiro não contribui em nada para dissipar as apreensões que continuam no ar. Ao contrário.
Lula se diz indignado com os preços, mas não ajuda. A forte expansão de gastos promovida pelo governo petista contribui não apenas para o aumento do endividamento público, mas também para a alta da inflação. Preocupado com a queda nos índices de popularidade, ele tem insistido em manter a economia artificialmente aquecida, estimulando a demanda e pressionando os preços. É verdade que o cenário internacional, convulsionado pelas decisões de Donald Trump, não é favorável. Mas, em vez de ficar caçando vilões imaginários, Lula deveria reconhecer seus próprios erros.
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