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Candidatos decepcionam ao desprezar educação

Por ditorial / O GLOBO

 

O período eleitoral traz a eleitores e candidatos a oportunidade de expor sua visão para o futuro do país. É auspicioso que temas importantes como terras-raras, o tarifaço americano, o petróleo na Margem Equatorial, as emendas parlamentares, as altas taxas de juros ou a corrupção tenham entrado na agenda. São assuntos da maior relevância. Infelizmente, o tema mais estratégico para o desenvolvimento do país continua ausente ou em segundo plano: a educação. Nenhuma política industrial, monetária, comercial ou redistributiva tem chance de levar o país a outro patamar de desenvolvimento se a população continuar despreparada para a economia moderna. E a distância para isso continua gigantesca.

 

O principal indicador da qualidade do ensino básico, o Ideb, mostra que os avanços obtidos nos anos iniciais não se mantêm nas fases seguintes. Estudantes saem do ensino médio sem condições de obter formação superior compatível com a necessidade brasileira de desenvolvimento. Presas a modelos arcaicos e a amarras corporativistas, as próprias faculdades estão aquém de oferecer cursos em nível adequado, como atesta — entre tantos outros — o resultado da avaliação do MEC dos cursos de medicina.

 

Ainda que o ensino superior receba a maior fatia dos recursos públicos destinados à educação, grande parte do dinheiro se perde em cursos de pouca valia para a sociedade, mantidos apenas para preservar feudos acadêmicos, em geral associados à militância — e não à produção de ciência e conhecimento de qualidade, fundamentais para qualquer país se desenvolver. O ensino privado se mostra incapaz de suprir a lacuna. O resultado é a desconexão crescente entre academia e sociedade.

 

Nas principais pesquisas de opinião, a educação costuma aparecer entre as seis maiores preocupações dos brasileiros. As carências do ensino básico continuam a gerar gargalos ao longo do percurso educacional e profissional. Por isso ele é tão crítico e exige ação do poder público. Uma pesquisa do Todos Pela Educação revelou que, nos locais onde as políticas educacionais têm êxito, a população reconhece e valoriza o avanço. O tema não é abordado pelas campanhas simplesmente porque os candidatos não têm o que mostrar, diz Priscila Cruz, presidente executiva do Todos Pela Educação.

 

Um dos destaques positivos recentes, segundo ela, é o Rio Grande do Sul. O estado obteve o segundo maior avanço em português e o terceiro em matemática no ensino médio, depois da enchente histórica que devastou dezenas de municípios. O dado certamente entrará no debate eleitoral. Entre as unidades federativas, o maior avanço foi registrado no Piauí, um dos estados mais pobres do país. É certo que a questão tem apelo para o eleitorado e deverá ser tema da campanha que se inicia. O Rio, em contrapartida, continua nas últimas posições do Ideb e, na falta de políticas consistentes e coerentes, tem sido incapaz de transformar em educação de qualidade os tímidos avanços obtidos nos indicadores — resultantes em boa parte de uma manobra, com a adoção de aprovação automática.

 

A educação deveria estar no centro da campanha. Foi por meio de políticas educacionais robustas que países como China ou Coreia do Sul alcançaram outro patamar de desenvolvimento. A ausência do tema na agenda prioritária dos candidatos revela a indigência do debate eleitoral no Brasil.

 

Avanços obtidos nos anos iniciais de ensino não se mantêm nas fases seguintesAvanços obtidos nos anos iniciais de ensino não se mantêm nas fases seguintes — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/04/06/2025

 

 

 

 

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