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Argentinos votam contra o retrocesso

Por Notas & Informações / o estadão de sp

 

 

A Argentina acaba de dar ao presidente Javier Milei uma vitória robusta e surpreendente. As eleições legislativas de meio de mandato confirmaram o governo como a principal força política do país e selaram a derrocada do peronismo, hoje sem liderança, sem narrativa e – ao menos a curto prazo – sem futuro. O eleitorado, cansado de ilusões e de crises recorrentes, transformou o pleito num referendo em favor do ajuste e da responsabilidade – e isso é uma excelente notícia, num continente habituado a se render facilmente à ilusão do populismo irresponsável de esquerda. A Argentina parece finalmente disposta a abandonar o ciclo de populismo e autoengano que a reduziu de potência agrícola a caso clínico de disfunção econômica.

 

O novo mandato é, antes de tudo, um voto de confiança na coragem. Milei impôs ao país uma terapia de choque: cortes drásticos de gastos, desregulação em larga escala, redução de subsídios e um esforço inédito de consolidação fiscal. A inflação desabou de patamares de 13% ao mês para pouco mais de 2%, o déficit virou superávit e o país, enfim, reencontrou algum equilíbrio. O eleitor reconheceu a honestidade do governo em dizer a verdade e assumir o custo político de um ajuste que muitos preferiram adiar.

 

Mas a lição do êxito fiscal é também um alerta. O ajuste funcionou porque foi rápido e duro – e porque o governo resistiu às tentações da “heterodoxia gradualista” que desmoralizou administrações anteriores. Agora, porém, é preciso completar o tripé: liberalizar o câmbio, reconstruir reservas e atrair investimento. O peso sobrevalorizado, mantido como âncora para conter preços, já asfixia exportações, alimenta importações e corrói a competitividade. O balão de oxigênio da Casa Branca, com uma linha de swap de US$ 20 bilhões, comprou tempo, não credibilidade. Sem uma flutuação limpa e um regime monetário previsível, a história argentina tende a se repetir.

 

A tarefa é dupla. Exige coragem econômica e maturidade política. Coragem para desmontar as últimas amarras cambiais e permitir que o mercado defina o valor da moeda, ancorando expectativas num sistema transparente de metas de inflação e acumulação de reservas. Maturidade para transformar a disciplina fiscal em política de Estado, institucionalizar regras de responsabilidade e negociar, com governadores e o centro reformista, as reformas estruturais que faltam: a tributária, a previdenciária e a trabalhista, e o programa de privatizações com marcos regulatórios claros e estáveis.

 

A Argentina tem, pela primeira vez em décadas, a chance de converter-se de laboratório das piores práticas estatistas em vitrine das melhores políticas liberais. O mundo observa se o país conseguirá consolidar uma nova era de racionalidade fiscal e monetária, capaz de sustentar crescimento, produtividade e redução da pobreza. Investidores e parceiros só voltarão a apostar de verdade quando virem as reformas convertidas em lei e o câmbio livre de manipulações.

 

Buenos Aires pode aprender com Brasília do final dos anos 1990 – a coragem de flutuar a moeda, estabelecer metas e consolidar o tripé macroeconômico. Mas o Brasil também tem algo a aprender com a Argentina: é possível vencer eleições dizendo verdades duras e governar sem disfarçar as contas. O populismo assistencialista concentra poder político, mas mina o crescimento econômico. O vizinho que ousou ajustar o Estado prova que adiar reformas só torna o remédio mais amargo.

 

Nada garante que Milei conseguirá sustentar sua revolução. As tentações do atalho – controlar o câmbio, governar por decreto, ceder à retórica de confronto – continuam presentes. O governo precisará substituir o impulso messiânico pela engenharia paciente das coalizões e a reconstrução institucional que o país ainda deve a si mesmo.

 

Os argentinos concederam a Milei uma segunda chance – e talvez a última – de quebrar a espiral de crises que marcou quase um século de populismo. Se usar o capital político para liberalizar de vez a economia e consolidar um pacto reformista, poderá colocar a Argentina, enfim, no caminho da normalidade e do crescimento sustentado. Caso contrário, o “milagre” voltará a ser mais um parêntese na longa sucessão de promessas fracassadas.

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