Avanço do crime organizado sobre a Amazônia exige ação estadual e federal
Por Editorial / O GLOBO
É preocupante a constatação de que organizações criminosas atuam em um terço dos municípios da Amazônia Legal. No ano passado, 260 das 772 cidades amazônicas abrigavam ao menos uma facção do crime organizado, 46% mais que em 2022, segundo a terceira edição do estudo “Cartografias da violência na Amazônia”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Mãe Crioula (IMC). Em 84 dessas cidades, havia mais de uma facção.
Entre as 19 organizações criminosas que atuam nos nove estados da região, a hegemônica, segundo o estudo, é o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, que controla o tráfico em 130 municípios. O Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, atua em 28. Grupos locais completam a lista. O CV passou a marcar presença no Norte a partir de 2017, quando perdeu rotas na fronteira com o Paraguai. “Boa parte do dinheiro que circula na região hoje é do crime”, diz Renato Sérgio de Lima, presidente do FBSP. “Em termos etnográficos, é possível dizer que o crime organizado é o principal empregador na Região Amazônica.”
Embora os assassinatos tenham caído 6,2% na Amazônia em 2023 — como resultado de políticas públicas bem-sucedidas, mas também da hegemonia do CV —, o quadro ainda é dramático. O índice da região supera a média brasileira (32,3 ante 22,8 mortes por 100 mil habitantes). A ação das facções ocupa lugar central. Não só pelo narcotráfico, mas também pela conexão com desmatamento e garimpo ilegal. O entrelaçamento das atividades criminosas ficou patente no assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips em junho de 2022, por quadrilhas que, segundo as investigações, praticavam tráfico de drogas e pesca ilegal.
O combate a esses grupos se torna mais desafiador diante das conexões do crime com a política. Em outubro, a Polícia Federal deflagrou uma operação em Parintins (AM) para investigar a associação de agentes públicos e uma facção para favorecer uma candidatura à prefeitura. Reportagens especiais do GLOBO mostraram que municípios com altas taxas de desmatamento elegeram prefeitos acusados de infrações ambientais. Revelaram ainda a influência do garimpo ilegal nas eleições.
A Amazônia é estratégica para o tráfico por fazer fronteira com Colômbia, Bolívia e Peru, grandes produtores de drogas. Mas o que acontece lá não é muito diferente do que ocorre noutras regiões acossadas pelo poder das facções e pelas disputas sangrentas por território. O estudo torna evidente que o enfrentamento ao crime organizado não pode ficar restrito a forças e instituições locais.
O problema do Norte é o mesmo do Sudeste, do Nordeste, do Sul e do Centro-Oeste. Precisa ser tratado por inteiro. Durante décadas, o Brasil se preocupou com a soberania da Amazônia. Não há soberania num território dominado pelo crime. Ou o governo federal se une aos estados num plano de segurança robusto para atacar as organizações criminosas, ou os próximos diagnósticos trarão dados ainda mais desalentadores.

